Vivemos tempos de estatísticas, números e gráficos. Tudo é medido, avaliado e comparado. Em qualquer momento aparece uma notícia ou reportagem que nos mostra os factores de risco para se contrair uma determinada doença, para se estar na eminência de um determinado fenómeno meteorológico, ou de ser-se vítima de um certo acontecimento social ou económico. Há factores de risco para tudo e todos os gostos e receios, independentemente da idade, sexo, envolvência política ou credo religioso, mas o maior factor de risco dos nossos tempos, talvez até de todos os tempos, por mais que o nosso tempo nos pareça um tanto evulsivo e instável, é, sem sombra de dúvida, ser-se ignorante e burro! Se não fizermos por estar atentos ao que se passa à nossa volta e aos filmes que se vão fazendo na nossa ausência de consciência, independentemente do que os números nos revelem, acabamos por passar ao lado de muita coisa e isso pode ser o fim do nosso sossego psicológico, do nosso equilíbrio emocional e, eventualmente, do nosso tempo de (qualidade de) vida. Um dos clichés mais carregados de verdade é aquele que nos revela que
“o maior risco que corremos é o de não corrermos riscos”. Há muita incerteza e ambiguidade em tudo o que nos rodeia e que observamos no nosso dia-a-dia mas como também nos diz outro cliché, desta feita escrito por John Lennon,
“a vida é o que nos acontece enquanto fazemos planos”. Não vale a pena evitarmos riscos, salvo os puramente desnecessários, e também não nos serve de muito investirmos demasiado tempo a analisá-los com o intuito de planificar uma estratégia ousada para encontrar os mais acessíveis, senão, consoante os vários momentos que se desencadeiam, e os mesmo nos confrontam, até quando as coisas acontecem sem nossa responsabilidade ou culpa. A vida é o que se passa agora e agora, e agora e… agora, sempre e a todo o momento! Desenrola-se a uma velocidade, cadência e ritmo frenéticos, mesmo quando optamos por relaxar confortavelmente num sofá da sala a ver todo o tipo de porcarias – em formato de raios catódicos, ou, para os tecnologicamente mais evoluídos, em formato de cristais líquidos ou plasma – o que também sabe bem, não digo o contrário e até prescrevo aos mais acelerados. Fundamental é usar-se a cabeça para algo mais do que acertar num esférico normalizado pela FIFA ou desviar da ocasional chumabada ou regurgitação desvitaminada que aparece em tudo quanto é programa televisivo, revista e jornal. Os neurónios estão contados à partida e quer a agressão seja física ou psicológica, há que lhes dar protecção e uso ao mesmo tempo. Tudo isto funciona como uma espécie de forma de bolos que se enche de massa bem temperada e amassada, com recheio de inúmeros ingredientes, doces e amargos, e uma cobertura farta de coisas saborosas mas também agradáveis à vista. Resulta mais ou menos ao gosto e consoante a habilidade de cada um, mas convém sempre levá-la ao forno, de forma apaixonada, na temperatura e no momento certo. Parece simples mas não é, de todo. A receita difere em género e conteúdo de pessoa para pessoa e há tantos formatos de formas quantas as personalidades. Não tenho dúvidas que viver resulta de uma conjugação de factores e características individuais. Os factores, sendo estruturais ou conjunturais, podem ser anulados, minimizados ou ultrapassados pelas nossas características de personalidade e carácter. Essas características podem ser inatas e outras adquiridas, mas seja como for não há como aprender com a experiência para se evoluir em espírito e crescer em habilidade. No fundo, a vida mede-se pelas memórias, umas mais resistentes que outras, resultantes de experiências mais ou menos interessantes. Toda a causa tem um efeito e uma escolha que a norteia. Livre-arbitramos a nossa vida, correndo riscos em todos os momentos e a cada inspiração e expiração que realizamos, por isso, há que viver cada bafo e da melhor forma… erh… parece que resulta melhor em inglês –
“live every breath!” – e os asmáticos também não devem temer essa postura de vida, toca-nos a todos!